Passar para o Conteúdo Principal

município

logo Paredes

videopromocional

siga-nos Facebook Instagram RSS feed

Apontamentos da Nossa História: A tradição do prato comum na ceia de Natal

4
2
3
5
19 Janeiro 2026

Ao iniciarmos um novo ano, recordamos que esta rubrica, Apontamentos da Nossa História, não tem como objetivo desenvolver estudos profundos de investigação histórica. Pretende-se, antes, recolher e dar a conhecer pequenas notas do nosso passado local que, embora simples, são fundamentais para a construção da identidade da nossa comunidade. A história de um território não se faz apenas de grandes acontecimentos ou monumentos imponentes. Faz-se também de gestos quotidianos, de práticas partilhadas e de tradições que, sendo aparentemente menores, encerram valores profundamente identitários. Muitas dessas práticas integram aquilo a que chamamos património cultural imaterial — saberes e costumes transmitidos de geração em geração que, quando deixam de ser praticados, desaparecem.

Neste mês de janeiro de 2026, iniciamos os Apontamentos da Nossa História com o registo de uma tradição da freguesia de Aguiar de Sousa que se encontra em risco de desaparecer: a partilha do mesmo prato na consoada de Natal. Durante uma visita orientada a uma casa tradicional de pátio fechado, no lugar de Aguiar, chamou-nos a atenção um grande prato colocado num nicho na parede da cozinha de fumeiro. Tratava-se do chamado prato de Natal ou prato galinheiro (Ramos, 2025), utilizado na consoada, do qual todos os presentes comiam o bacalhau, as batatas cozidas e a couve. Um objeto simples, mas carregado de significado.

Esta prática está associada à comensalidade — o ato social de comer em conjunto — e reforça valores como a partilha, a proximidade e o sentimento de pertença. Comer do mesmo prato implicava igualdade, confiança e comunhão entre os comensais. Embora hoje seja rara, ainda subsiste em algumas casas da freguesia, como no caso observado, onde mãe e filha continuam a manter viva esta tradição. A consoada, enquanto ritual alimentar, assume um papel central na cultura portuguesa. Não se trata apenas do que se come, mas sobretudo de como se come. A partilha do mesmo prato reforça os laços de proximidade, pertença e intimidade entre os comensais. Comer do mesmo recipiente implica confiança. Mesmo sendo uma prática em declínio, ainda subsiste em algumas casas da freguesia de Aguiar de Sousa, como foi o caso observado, onde a consoada era partilhada por duas pessoas — mãe e filha — mantendo viva uma tradição herdada.

Os pratos utilizados para este fim eram, por norma, de grandes dimensões, variando entre os 32 e 35 cm de diâmetro de boca e entre 4 a 5 cm de profundidade, podendo ser de faiança ou de barro, materiais comuns no quotidiano doméstico rural. Os pratos de faiança poderiam presentar uma decoração policromática, com motivos decorativos vegetalistas e/ou representações de animais. Enquanto a louça de barro tinha decoração geométrica ou floral em cor amarela, contrastando com a cor alaranjada do barro.

Historicamente, esta prática era muito mais frequente. No concelho de Paredes, na primeira metade do século XX, a partilha do prato repetia-se diariamente nas famílias rurais. À mesa, o alimento era comum e o prato podia ser partilhado por duas ou mais pessoas, conforme Maria da Conceição Sousa nos contou, tendo ela própria experienciado na casa dos avós, na freguesia de Mouriz. Segundo Maria Antónia Lopes em festividades de família comiam em grandes sopeiras de barro, para quatro ou mais pessoas cada uma (Lopes, 2012). No Barroso, no momento do bodo comunitário, durante a festa de São Sebastião, os comensais partilham da mesma mesa e servem-se simultaneamente do mesmo prato, (Lameiras, 1977). A comensalidade estendia-se igualmente a outros contextos, como as merendas no campo, durante as principais fainas agrícolas, onde o grande prato era colocado no chão, sobre uma toalha, contendo batata cozida, bacalhau desfiado, cebola e azeitonas, regados com um pouco de azeite, e a partir do qual todos comiam diretamente dali. O uso de azeite era racionado usando-se a expressão para a quantidade: o azeite no prato deve ser “olho de gato” e não “olho de boi”, o uso deste último é porque a pessoa era desgovernada como experienciou e testemunhou Maria da Conceição Sousa.

Esta forma de partilha não se limitava ao mundo rural laico. Em contexto monástico, a prática de comer do mesmo prato também era conhecida, sendo, contudo, regulada por normas específicas, como a proibição de mais de duas monjas partilharem o mesmo prato.

Estas práticas são verdadeiros marcadores identitários. Não é por acaso que estes rituais surgem também refletidos na literatura portuguesa, como Teixeira de Queirós descreve, “….. O seu bacalhau com batatas, nadando em azeite e vinagre, comido em comum no mesmo alguidar, é manjar maravilhoso” (in Lopes 2022).

Como se verifica, partilhar o mesmo espaço, a mesma mesa e o mesmo prato é um gesto carregado de simbolismo onde a mesa e o ato de comer em conjunto assumem um papel central na vida comunitária e familiar.

O progressivo abandono destas práticas não significa apenas uma mudança de hábitos alimentares, mas a perda de uma forma de estar, de se relacionar e de construir comunidade. O seu registo e reflexão permitem, assim, salvaguardar a memória de um património cultural imaterial que é importante para a compreensão da nossa história social e cultural.

Janeiro 2026

Maria Antónia Silva

Agradecemos a disponibilidade e colaboração na cedência dos pratos e na informação prestada:

Presidente de Junta de Aguiar de Sousa, Fernando Santos

Maria do Carmo Teixeira

Maria da Conceição Dias de Sousa

Luzia de Fátima Ferreira de Sousa

Maria Célia Ferreira de Sousa

 

Bibliografia

LAMEIRAS, Alberto (1997) - O Alimento, a Festa e as Relações sociais – A Festa de S. Sebastião numa aldeia de Barroso. Revista de Guimarães, nº 107 jan-Dez. 1997, p. 219-242.

LOPES, Maria Antónia – Os alimentos nos rituais familiares portugueses (1850-1950) – in ARAÚJO, Maria Marta Lobo; LÁZARO, António Clemente; RAMOS, Anabela; ESTEVES, Alexandra (coord.), O tempo dos alimentos e os alimentos do tempo, Braga, CITCEM, 2022, pp. 167-179.

RAMOS, Anabela (2025) – Atlas do património Cultural Imaterial Paredes. Câmara Municipal de Paredes.

Conteúdo atualizado em19 de janeiro de 2026às 12:09
Top