Passar para o Conteúdo Principal

município

Câmara Municipal de Paredes (voltar ao início)

videopromocional

siga-nos Página do Facebook (abre numa nova janela) Página do Instagram (abre numa nova janela) Página do RSS feed (abre numa nova janela)

Portal de divulgação de informação autárquica, incluindo agenda, regulamentos e atendimento.

Apontamentos da Nossa História: As procissões pela chuva em Aguiar de Sousa

17 Abril 2026

Desde sempre que os povos viam na chuva, tal como no sol, uma fonte de vida. A chuva alimenta a natureza, permite o crescimento das plantas e transforma a paisagem. Em anos de estio, sobretudo em zonas rurais, a falta de chuva é considerada um dos piores cenários para a produção agrícola e para os animais.

Em diversas culturas ou religiões, é habitual as populações, em momentos de aflição, pedirem a bênção divina. No Antigo Egito, pedia-se chuva à deusa Tefnut; na Grécia Antiga, o deus invocado era Zeus; no Império Romano, recorria-se a Júpiter. É muito conhecida a tradição dos índios nativos americanos de dançarem para chamarem a chuva. Eles adotaram este ritual de dança e cânticos sempre que esta teimava em não chegar.

Há várias manifestações de fé em diferentes religiões em que os fiéis pedem que chova. No Islão, faz-se a oração Salat al-Istisqa; no judaísmo, a prece chama-se Tefilat Geshem; no catolicismo, fazem-se procissões ou rezam-se orações específicas.

O ano 2025, foi particularmente problemático em Portugal devido à seca prolongada. Em muitas localidades, foram realizadas vigílias de oração a suplicar pela chuva. Em outubro desse mesmo ano, no Santuário de Fátima, rezava-se por essa intenção uma oração que tinha sido elaborada em 1976 pelo Papa Paulo VI.

Também o folclore português, enquanto conjunto de tradições, lendas ou costumes populares, tem nas suas práticas pedidos de chuva associados a superstições. Em 1885, no seu livro “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições – vol. II” Teófilo Braga recolheu os seguintes testemunhos: nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, proíbe-se que “nem revolvam penedos e os lancem na água para haver chuva”. Na mesma obra podemos também ler que, “quando se vê uma centopeia, a descer por uma parede, é sinal de chuva, se sobe é sinal de sol” ou, “O costume de revolver penedos, ainda permanecia no século XIX em Vila Nova de Foz Côa. Para pedir chuva juntavam-se nove donzelas, que iam em procissão a um sítio chamado Lameiro de Azinhate, e ali viravam para baixo uma grande pia de pedra, retirando-se depois, seguras de que a chuva não faltará. Já as preces eram feitas a Nossa Senhora”.

Na freguesia de Aguiar de Sousa, mais concretamente no lugar de Aguiar ainda perdura na memória popular a realização de procissões a suplicar pela chuva entre a capela de São Sebastião e o local da pia no alto da serra de Pias, no limite da mesma freguesia e do concelho de Paredes. O nome da serra advém do facto de no seu cimo existir uma concavidade (pia) na rocha onde a água se deposita. Estas concavidades são criadas por um processo lento e localizado de erosão das rochas, que retêm a água da chuva ou das nascentes. Estas pias adquirem um significado especial para as populações, que as tornam locais sagrados onde se realizam procissões ou rituais associados a crenças.

Este maciço rochoso tem várias designações conforme o local. Também é chamado de serra de São Martinho, serra da Pia, serra do Raio ou monte das Póvoas. (Moreira, 2025)

O padre da freguesia de Campo, Valongo, em 1758, escreveu nas Memórias Paroquiais que “no alto da dita serra, onde confina a parte com Aguiar de Souza, está hua cova feita na fraga a que chamam a Pia de São Martinho, a qual está sempre cheia de agoa. E a qual pia tem os povos desta terra por certo que hindo no tempo das secas vaziá-la da dita agoa, logo o Senhor São Martinho lhes dá chuva ou Deos por meio delle.”

José do Barreiro, na Monografia de Paredes, aborda o assunto transcrevendo uma passagem do livro do padre Lopes dos Reis, A Villa de Valongo, de 1904: “No cume da serra do Raio nas vistas de Aguiar de Sousa, existe uma cisterna oval que tem na maior largura quatro metros e na menor dois com a profundidade de quasi tres, onde a água é tanta que nunca séca.” Numa nota acrescenta: “Em tempos que já lá vão, os povos de Aguiar de Sousa nas épocas de grande séca vinham a este lugar que chamam as Pias de S. Martinho com uma espécie de procissão, esgotavam a cisterna que limpavam e enxugavam, colocando no centro uma cruz que traziam na esperança de, por este meio, fazerem vir a chuva.”

O Inquérito Arqueológico de 1957 refere que “Sempre que havia algum período de longa seca, o povo de S. Martinho, com o seu pároco à frente, partia da Igreja [Campo], em procissão de penitência, para a serra da Pia. Chegados lá, escoavam a cisterna que o Senhor Abade limpava com uma toalha de seda. Quando a procissão regressava, a meio da encosta já a chuva caía abundantemente.” (Moreira, 2025)

Os relatos dos habitantes das redondezas da serra de Pias, tanto do concelho de Paredes como o de Valongo, são coincidentes quanto à antiguidade das procissões que percorriam as encostas da serra até ao local da pia para a limpar com toalhas de linho ou de seda e lá deixar uma cruz que tinha sido transportada desde a igreja ou capela das povoações. Pelo caminho entoavam cânticos litúrgicos e oravam a suplicar pela chuva. Com este ato de fé, tinham a esperança que a chuva apareceria em breve. No regresso a casa, afiançam, já começava a chover.

Diz-se que, quando a pia está cheia pode conter 10 pipas de água.

Entre o sagrado e o profano, o objetivo foi sempre o mesmo: suplicar pela chuva.

Abril/2026

João Vieira

Bibliografia:

BARREIRO, José. Monografia de Paredes. Porto, Tipografia Mendonça (a vapor) de Laura Couto & Pinto. 1922

BRAGA, Teófilo “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições – vol. II”, 1885. Policopiado.

MOREIRA, Paulo Caetano. Campo e Sobrado – Duas Freguesias – Notas Monográficas. Campo/Sobrado, Junta de freguesia de Campo e Sobrado. 2025

Imagens:

Autor

Conteúdo atualizado em17 de abril de 2026às 10:17
Voltar ao topo da página