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Apontamentos da Nossa História: As procissões pela chuva em Aguiar de Sousa

17 Abril 2026

Desde sempre que os povos viam na chuva, tal como no sol, uma fonte de vida. A chuva alimenta a natureza, permite o crescimento das plantas e transforma a paisagem. Em anos de estio, sobretudo em zonas rurais, a falta de chuva é considerada um dos piores cenários para a produção agrícola e para os animais.

Em diversas culturas ou religiões, é habitual as populações, em momentos de aflição, pedirem a bênção divina. No Antigo Egito, pedia-se chuva à deusa Tefnut; na Grécia Antiga, o deus invocado era Zeus; no Império Romano, recorria-se a Júpiter. É muito conhecida a tradição dos índios nativos americanos de dançarem para chamarem a chuva. Eles adotaram este ritual de dança e cânticos sempre que esta teimava em não chegar.

Há várias manifestações de fé em diferentes religiões em que os fiéis pedem que chova. No Islão, faz-se a oração Salat al-Istisqa; no judaísmo, a prece chama-se Tefilat Geshem; no catolicismo, fazem-se procissões ou rezam-se orações específicas.

O ano 2025, foi particularmente problemático em Portugal devido à seca prolongada. Em muitas localidades, foram realizadas vigílias de oração a suplicar pela chuva. Em outubro desse mesmo ano, no Santuário de Fátima, rezava-se por essa intenção uma oração que tinha sido elaborada em 1976 pelo Papa Paulo VI.

Também o folclore português, enquanto conjunto de tradições, lendas ou costumes populares, tem nas suas práticas pedidos de chuva associados a superstições. Em 1885, no seu livro “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições – vol. II” Teófilo Braga recolheu os seguintes testemunhos: nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, proíbe-se que “nem revolvam penedos e os lancem na água para haver chuva”. Na mesma obra podemos também ler que, “quando se vê uma centopeia, a descer por uma parede, é sinal de chuva, se sobe é sinal de sol” ou, “O costume de revolver penedos, ainda permanecia no século XIX em Vila Nova de Foz Côa. Para pedir chuva juntavam-se nove donzelas, que iam em procissão a um sítio chamado Lameiro de Azinhate, e ali viravam para baixo uma grande pia de pedra, retirando-se depois, seguras de que a chuva não faltará. Já as preces eram feitas a Nossa Senhora”.

Na freguesia de Aguiar de Sousa, mais concretamente no lugar de Aguiar ainda perdura na memória popular a realização de procissões a suplicar pela chuva entre a capela de São Sebastião e o local da pia no alto da serra de Pias, no limite da mesma freguesia e do concelho de Paredes. O nome da serra advém do facto de no seu cimo existir uma concavidade (pia) na rocha onde a água se deposita. Estas concavidades são criadas por um processo lento e localizado de erosão das rochas, que retêm a água da chuva ou das nascentes. Estas pias adquirem um significado especial para as populações, que as tornam locais sagrados onde se realizam procissões ou rituais associados a crenças.

Este maciço rochoso tem várias designações conforme o local. Também é chamado de serra de São Martinho, serra da Pia, serra do Raio ou monte das Póvoas. (Moreira, 2025)

O padre da freguesia de Campo, Valongo, em 1758, escreveu nas Memórias Paroquiais que “no alto da dita serra, onde confina a parte com Aguiar de Souza, está hua cova feita na fraga a que chamam a Pia de São Martinho, a qual está sempre cheia de agoa. E a qual pia tem os povos desta terra por certo que hindo no tempo das secas vaziá-la da dita agoa, logo o Senhor São Martinho lhes dá chuva ou Deos por meio delle.”

José do Barreiro, na Monografia de Paredes, aborda o assunto transcrevendo uma passagem do livro do padre Lopes dos Reis, A Villa de Valongo, de 1904: “No cume da serra do Raio nas vistas de Aguiar de Sousa, existe uma cisterna oval que tem na maior largura quatro metros e na menor dois com a profundidade de quasi tres, onde a água é tanta que nunca séca.” Numa nota acrescenta: “Em tempos que já lá vão, os povos de Aguiar de Sousa nas épocas de grande séca vinham a este lugar que chamam as Pias de S. Martinho com uma espécie de procissão, esgotavam a cisterna que limpavam e enxugavam, colocando no centro uma cruz que traziam na esperança de, por este meio, fazerem vir a chuva.”

O Inquérito Arqueológico de 1957 refere que “Sempre que havia algum período de longa seca, o povo de S. Martinho, com o seu pároco à frente, partia da Igreja [Campo], em procissão de penitência, para a serra da Pia. Chegados lá, escoavam a cisterna que o Senhor Abade limpava com uma toalha de seda. Quando a procissão regressava, a meio da encosta já a chuva caía abundantemente.” (Moreira, 2025)

Os relatos dos habitantes das redondezas da serra de Pias, tanto do concelho de Paredes como o de Valongo, são coincidentes quanto à antiguidade das procissões que percorriam as encostas da serra até ao local da pia para a limpar com toalhas de linho ou de seda e lá deixar uma cruz que tinha sido transportada desde a igreja ou capela das povoações. Pelo caminho entoavam cânticos litúrgicos e oravam a suplicar pela chuva. Com este ato de fé, tinham a esperança que a chuva apareceria em breve. No regresso a casa, afiançam, já começava a chover.

Diz-se que, quando a pia está cheia pode conter 10 pipas de água.

Entre o sagrado e o profano, o objetivo foi sempre o mesmo: suplicar pela chuva.

Abril/2026

João Vieira

Bibliografia:

BARREIRO, José. Monografia de Paredes. Porto, Tipografia Mendonça (a vapor) de Laura Couto & Pinto. 1922

BRAGA, Teófilo “O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições – vol. II”, 1885. Policopiado.

MOREIRA, Paulo Caetano. Campo e Sobrado – Duas Freguesias – Notas Monográficas. Campo/Sobrado, Junta de freguesia de Campo e Sobrado. 2025

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Conteúdo atualizado em17 de abril de 2026às 10:17
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