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- Apontamentos da Nossa História: Joaquim Moreira dos Santos e os primeiros passos da Indústria do Mobiliário no Concelho de Paredes
Apontamentos da Nossa História: Joaquim Moreira dos Santos e os primeiros passos da Indústria do Mobiliário no Concelho de Paredes
A história de Paredes está inevitavelmente ligada à transformação da madeira, atividade que foi a principal responsável pelas profundas mudanças e vivências sentidas ao longo de todo o século XX no concelho.
Embora o início desta atividade não esteja ainda totalmente esclarecido, uma coisa é certa: falar de Paredes é pensar na indústria do mobiliário.
Num tempo em que se fala cada vez mais da importância da indústria do mobiliário para a afirmação da identidade do território, é essencial não esquecer aqueles que contribuíram e desempenharam um papel determinante no desenvolvimento desta atividade.
A arte de trabalhar a madeira em Paredes remonta ao século XIX, conforme se pode observar no estudo desenvolvido sobre as origens da indústria do mobiliário no concelho (Pereira, 2011). Nesse trabalho percebe-se que a transformação da madeira se concentrou, desde muito cedo, na zona norte do concelho, uma característica que, em grande medida, permanece até aos dias de hoje.
A indústria do mobiliário em Paredes começou de forma rudimentar, com escassos recursos financeiros e humanos. No entanto, o seu principal ativo foi, e continua a ser, o capital humano, que desde cedo se destacou pelo espírito empreendedor e pela vontade de vencer dos homens e mulheres de Paredes. Muitos foram aqueles que lutaram e procuraram construir o seu futuro entre o serrim e as oficinas de madeira.
Neste apontamento da nossa história pretende-se destacar um desses homens que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento e afirmação do setor do mobiliário em Paredes: Joaquim Moreira dos Santos.
Joaquim Moreira dos Santos nasceu em Rebordosa, a 4 de maio de 1899, e faleceu a 6 de outubro de 1997. Era filho de António Joaquim Moreira dos Santos, cuja vida terá sido bastante atribulada, conforme é retratada por Azevedo (1961).
Joaquim Moreira dos Santos começou a trabalhar muito cedo, como era habitual na época, devido também às dificuldades familiares que assim o exigiam. Com apenas 13 anos, iniciou a sua atividade numa pequena oficina de cadeiras pertencente ao pai, onde já se produziam outras peças de mobiliário de estilo, nomeadamente no estilo Luís XV, como refere Azevedo (1961).
Foi também nessa altura que o pai decidiu contratar alguns entalhadores do Porto para ensinarem a arte ao jovem Joaquim Moreira dos Santos.
Contudo, seria em 1919, já com 20 anos, que Joaquim Moreira dos Santos criaria, juntamente com o pai, uma primeira oficina de marcenaria em Rebordosa. Este acontecimento assume particular relevância para a história da indústria do mobiliário em Paredes, uma vez que, até então, as oficinas existentes se dedicavam essencialmente à produção de cadeiras.
Este facto, aparentemente simples, marcou uma mudança significativa no território, pois tratava-se de uma das primeiras oficinas de marcenaria da região.
O crescimento desta oficina permitiu atingir uma dimensão que justificou a criação de uma nova sociedade. Para tal, contou com a participação do irmão, Albino Santos, que tinha regressado do Brasil e dispunha das instalações onde anteriormente existira uma serração, no lugar do Padrão, em Lordelo.
Esta sociedade ficou conhecida como “Joaquim Moreira dos Santos & Irmão”, da qual se conhece o pedido de autorização para instalação da oficina, publicado no jornal Progresso de Paredes de 5 de agosto de 1933 (Pereira, 2011).
Apesar do sucesso inicial, a sociedade acabaria por se dissolver, obrigando Joaquim Moreira dos Santos a regressar à casa paterna, no lugar da Lage, onde deu continuidade à oficina de marcenaria. Foi nesse espaço que continuaram a formar-se marceneiros e entalhadores que, mais tarde, desenvolveriam a sua atividade por conta própria em diferentes pontos do concelho.
Algum tempo depois, e por insistência da família, os irmãos voltaram a constituir sociedade, que se manteve até cerca de 1954. Nessa altura separaram-se novamente e Joaquim Moreira dos Santos decidiu avançar com um novo projeto empresarial: a NOVOPAN (Azevedo, 1961).
Esta forte relação familiar constitui uma das principais conclusões do estudo realizado por Pereira (2011), sendo este caso um exemplo particularmente elucidativo da forma como as redes familiares contribuíram para o desenvolvimento e consolidação da indústria do mobiliário em Paredes.
A NOVOPAN foi um projeto que Joaquim Moreira dos Santos vinha idealizando e desenvolvendo há vários anos. Visionário e atento às exigências do mercado, percebeu a necessidade de aproveitar os desperdícios da madeira, reduzindo simultaneamente os custos associados às matérias-primas.
A crescente necessidade de otimizar recursos e tornar os produtos mais acessíveis exigia novas soluções. A NOVOPAN respondeu a esse desafio, introduzindo importantes inovações tecnológicas e promovendo uma profunda modernização dos processos produtivos, através da aquisição de maquinaria proveniente da Alemanha.
De acordo com os testemunhos recolhidos, Joaquim Moreira dos Santos demonstrava uma preocupação constante em introduzir novas ideias, melhorar os métodos de produção e proporcionar melhores condições de trabalho aos seus colaboradores.
O edifício da NOVOPAN encontrava-se localizado atrás da fábrica de móveis de Joaquim Moreira dos Santos, no lugar de Vilar, local onde atualmente se encontra uma superfície comercial.
Segundo o testemunho da sua neta, Aida Assis Santos, a fábrica foi crescendo ao longo dos anos, oferecendo boas condições de higiene e segurança aos trabalhadores e dispondo de equipamento bastante avançado para a época.
Numa entrevista realizada em 1993, Joaquim Moreira dos Santos afirmou:
(…) fiz a outra Fábrica de Aglomerados de Madeira – a primeira fábrica portuguesa do género. Fui à Alemanha escolher e comprar máquinas. Também comprei algumas na Itália. Nessa altura separei a sociedade com o meu irmão. Ele ficou com a fábrica de móveis Joaquim Moreira dos Santos & Irmão e eu fui fazer a nova de Aglomerados, no lugar de Vilar. Até fiz duas, uma para aglomerados de madeira e outra para móveis. Aí trabalhavam cerca de 300 homens”. (Leal, 1993, p.11)
Este era o espírito de um industrial que, desde muito cedo, viveu ligado ao universo da madeira e que, graças ao seu empreendedorismo, capacidade de inovação e visão estratégica, contribuiu para transformar a economia local e reforçar a posição de Paredes como um importante centro de produção de mobiliário.
Joaquim Moreira dos Santos construiu ainda uma outra empresa de mobiliário em Terronhas, na freguesia de Recarei. Segundo o próprio, esse projeto tinha como objetivo criar um legado para os seus netos, que em 1993 eram cinco.
Numa entrevista concedida nesse mesmo ano, referia:
“(...) empreendi e construí o grande complexo industrial de Terronhas, a maior fábrica de móveis portuguesa (...)” (Leal, 1993, p. 11).
De acordo com a neta, Joaquim Moreira dos Santos foi sempre um visionário e um homem de negócios, cujo principal objetivo consistiu em criar um legado duradouro para a sua terra e para as gerações futuras.
Pelo seu percurso empreendedor, pela capacidade de inovação demonstrada ao longo da vida e pelo contributo que deu para a afirmação da indústria do mobiliário, Joaquim Moreira dos Santos ocupa um lugar de destaque na história económica e industrial de Paredes.
O legado que deixou permanece vivo na memória coletiva do concelho e constitui um testemunho do espírito de iniciativa que ajudou a transformar Paredes numa das mais importantes referências nacionais da indústria do mobiliário.
1. “Joaquim Moreira dos Santos requereu Licença para instalação de uma oficina de aglomerados de madeira incluída na 2ª classe, com os inconvenientes de barulho e perigo de incêndio. No lugar de Vilar, freguesia de Rebordosa, concelho de Paredes, distrito do Porto, confrontando do Norte, Nascente e Poente com o requerente e do Sul com caminho público.” In Progresso de Paredes 3 de maio de 1958, n.º 1427 ano XXVII
Junho 2026
Fernanda Pereira
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO, C. (1961). História da Indústria em Portugal, Fascículo XVIII
LEAL, R., (1993). Foi um Grande Industrial “O Progresso de Paredes, Paredes n.º 2811 – Ano LXIV. 30 de julho pp.10-11.
PEREIRA, F. (2011). A Indústria do Mobiliário no Concelho de Paredes (Master’s thesis,Universidade do Minho). Retrieved from http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/18135
Foto cedida pela família (Neta Aida Assis Santos)
