Passar para o Conteúdo Principal

município

Câmara Municipal de Paredes (voltar ao início)

videopromocional

siga-nos Página do Facebook (abre numa nova janela) Página do Instagram (abre numa nova janela) Página do RSS feed (abre numa nova janela)

Portal de divulgação de informação autárquica, incluindo agenda, regulamentos e atendimento.

Apontamentos da Nossa História: Lucernas romanas nas minas de ouro na freguesia da Sobreira, Paredes

17 Setembro 2026

A sul do atual concelho de Paredes conservam-se numerosos vestígios relacionados com a exploração mineira do ouro em época romana. Estes trabalhos integram um dos mais importantes complexos subterrâneos de exploração aurífera conhecidos para o período romano, atualmente inserido no território classificado como área protegida de âmbito regional — o Parque das Serras do Porto. As marcas deixadas na paisagem — cortas, galerias, poços, canais e outras estruturas associadas à exploração mineira — testemunham a intensidade das atividades desenvolvidas neste território há cerca de dois mil anos. Mas são também os pequenos objetos arqueológicos que nos permitem aproximar do quotidiano das pessoas que trabalharam nestas minas.

Entre os materiais arqueológicos associados a este contexto encontra-se uma peça particularmente significativa, quer pela sua função, quer pela informação que permite obter sobre as atividades desenvolvidas e as relações estabelecidas entre diferentes comunidades: a lucerna.

As lucernas eram pequenas lamparinas, geralmente de cerâmica ou, em alguns casos, de metal, utilizadas para produzir luz através da combustão de azeite ou outras gorduras. Embora fossem utilizadas em diferentes contextos da vida quotidiana romana, a sua utilização era particularmente importante nas explorações mineiras subterrâneas, onde a ausência de luz natural tornava indispensável a utilização de fontes de iluminação artificiais. No interior das galerias, as lucernas podiam ser colocadas em pequenas concavidades ou nichos abertos nas paredes — os chamados lucernários — permitindo aos mineiros iluminar os espaços de trabalho. Estes vestígios, ainda hoje observáveis em algumas explorações mineiras, nomeadamente nas minas das Banjas, de Castromil e de Serra da Quinta, constituem uma das evidências mais expressivas do quotidiano dos mineiros romanos.

Neste ambiente subterrâneo, a luz fornecida por uma pequena lucerna assumia uma importância fundamental: era, muitas vezes, a única fonte de iluminação disponível ao mineiro. A distribuição dos lucernários ao longo das galerias poderá, inclusivamente, estar relacionada com a autonomia da chama, condicionada pela quantidade de azeite e com a progressão do trabalho mineiro, embora a interpretação destes vestígios deva considerar as características específicas de cada exploração. Assim, uma simples lucerna poderia estar diretamente ligada ao ritmo e às condições do trabalho subterrâneo.

As lucernas conhecidas no território de Paredes constituem, por isso, importantes testemunhos não apenas das atividades quotidianas dos mineiros, mas também das relações económicas e sociais que sustentavam a exploração aurífera. Entre os exemplares encontrados destacam-se dois pelo facto de apresentarem inscrição, designadamente uma lucerna associada à Mina das Banjas onde se pode ver no fundo a palavra PHOETASPI, marca de um fabricante conhecido como PHOETASPUS; no sopé da serra e nas imediações do povoado-oficina do Poço Romano, uma lucerna que apresenta, no fundo, a inscrição LVCRETI e que está associada aparentemente a uma necrópole.

Relativamente à marca PHOETASPI, trata-se de um oleiro italiano com oficinas no Norte de Itália e que exportou para as províncias do Norte e Leste, sobretudo em época Cláudia (meados do sec. I d.C.) conhecido como Phoetaspus.

A marca LVCRETI poderá estar relacionada com o oleiro Lucretius, produtor cuja atividade é documentada em Bracara Augusta e que se enquadra cronologicamente entre os finais do século I e a primeira metade do século II. A produção associada a esta oficina poderá ter continuado para além da morte do seu proprietário, prolongando-se, segundo algumas interpretações, até meados do século III.

Algumas destas lucernas terão sido identificadas, aparentemente, em contexto funerário, nomeadamente na necrópole da Valdeira, em Santa Comba, freguesia de Sobreira. Apesar do seu contexto arqueológico específico, a sua presença numa área diretamente relacionada com a exploração mineira romana permite considerar a possibilidade de estarem também relacionadas com a intensa atividade económica que então se desenvolvia na região. Será importante referir que da Necrópole da Valdeira foi recolhido um vasto espólio do qual se destacam as referidas lucernas, gentilmente doadas ao Municipio de Paredes (1), sendo que um exemplar se encontra musealizado no Centro de Interpretação das Minas de Ouro de Castromil e Banjas, Sobreira.

Existem, contudo, outros exemplares cuja associação à atividade mineira é mais direta. Descobertos em contexto mineiro no início do século XX e divulgado por Carlos Teixeira e Teresa Soeiro. Estas lucernas incluem igualmente exemplares com marcas ou inscrições que poderão corresponder à identificação dos seus produtores. A presença destas peças permite vislumbrar uma realidade que ultrapassa a própria mina: a existência de circuitos de circulação de bens e de contactos económicos e sociais que ligavam as áreas mineiras a outros centros de produção e consumo.

As lucernas assumem, neste sentido, um valor documental particularmente expressivo. Para além de objetos destinados a uma necessidade elementar — iluminar —, constituem indicadores da organização do trabalho, dos hábitos quotidianos e das redes de abastecimento que sustentavam a exploração mineira. O facto de exemplares produzidos em centros cerâmicos distantes chegarem às áreas mineiras deste território de Paredes demonstra que estas comunidades não estavam isoladas, mas integradas em redes de circulação de pessoas, produtos e conhecimentos.

São, muitas vezes, objetos simples, de pequenas dimensões e produzidos em barro. Algumas apresentam decoração; outras conservam apenas marcas de fabrico ou inscrições. No entanto, quando observadas no seu contexto arqueológico, as lucernas tornam-se peças fundamentais para compreender a dimensão humana da mineração romana. Elas permitem-nos aproximar do quotidiano daqueles que, há cerca de dois mil anos, desciam ao interior da serra para extrair o ouro, levando consigo uma pequena luz que era simultaneamente instrumento de trabalho e condição indispensável para a sua realização.

Assim, cada lucerna encontrada nas antigas áreas mineiras de Paredes é mais do que um simples objeto de iluminação. Quando observados e interpretados adquirem uma dimensão muito maior. Uma lucerna permite-nos falar da presença romana, de tecnologia, comércio, produção artesanal, organização do trabalho e, sobretudo, das pessoas que diariamente enfrentavam as difíceis condições do trabalho subterrâneo. Através destas pequenas peças de cerâmica, é possível iluminar — também metaforicamente — uma parte significativa da história da mineração romana no Parque das Serras do Porto e em particular no atual território de Paredes.

Setembro 2026

Antónia Silva

Natália Félix

(1) Agradecimento especial à família Galhano na pessoa de Dra. Isabel Galhano pela doação do espólio.

 

Referências Bibliográficas

ALARCÃO, J. (1988) – Roman Portugal. Warminster – England. Vol. II, fasc 1, p. 27

MORAIS, Rui (2004) - Um Caso Único em Marcas de Lucernas – uma Figlina em Bracara Augusta documentada pela Oficina de Lvcretivs. Conimbriga. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coimbra. Vol. XLIII, p. 227-240

SILVA, M.; FELIX, N. (2008) - Mineração Romana no concelho de Paredes. In Oppidum: Número especial, pp.66-81.

SOEIRO, T. (1984) – Monte Mózinho - Apontamentos Sobre a Ocupação entre Sousa e Tâmega em Época Romana. Penafiel - Boletim Municipal de Cultura. Penafiel. 3ª Ser., 1, p. 108-121.

TEIXEIRA, C. (1941). Notas arqueológicas sobre as minas de ouro das Banjas (Serra de Valongo). Prisma. Porto. Vol. V, p. 24-25.

https://www.cm-paredes.pt/atividade-municipal/comunicacao/noticias/noticia/dia-internacional-dos-museus-18-de-maio 

Conteúdo atualizado em17 de setembro de 2026às 16:27
Voltar ao topo da página