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- Apontamentos da Nossa História: Ser Carreteira - Jornadas de sacrifício
Apontamentos da Nossa História: Ser Carreteira - Jornadas de sacrifício
Na primeira metade do século XX, as artes e os ofícios da construção de mobiliário no concelho de Paredes estavam fortemente marcados pela presença feminina. Antes da utilização generalizada de veículos de transporte, as cadeiras, os armários, as cómodas e outras peças de mobiliário eram transportadas à cabeça e às costas por mulheres.
Ao longo dos tempos, as mulheres tiveram sempre um papel secundário na sociedade. Eram erradamente estereotipadas como o sexo fraco. Contudo, as mulheres do concelho de Paredes nunca souberam o que era conjugar o verbo "fraquejar", mas sabiam respeitar e honrar o sacrifício que faziam a cada passo dado e a cada gota de suor escorrida ao transportar cadeiras.
Ficaram conhecidas, até aos dias de hoje, como carreteiras.
Atualmente, a atividade laboral com maior expressão no concelho de Paredes é a construção de mobiliário. Esta está sediada maioritariamente nas freguesias a norte, mas também está presente um pouco por todo o concelho. No início do século XX, o setor mais relevante era a agricultura, mas esta era pobre, dura e de subsistência.
Nessa altura, não se podia considerar a construção de móveis como uma indústria. Tratava-se de pequenas oficinas artesanais, geralmente anexas às casas de habitação, onde os marceneiros concebiam mobiliário, sobretudo cadeiras.
O talento e a mestria na aparelhagem e no corte das tábuas, associados à criatividade dos trabalhadores e ao saber-fazer transmitido de geração em geração, converteram-se desde muito cedo num resultado de excelência em termos de qualidade, consistência e perfeição, fazendo com que os operários de Paredes fossem reconhecidos para além dos limites do concelho. A sua fama espalhou-se, levando-os a receber encomendas dos grandes centros urbanos da época.
À medida que o marceneiro, que muitas vezes era o próprio marido da carreteira, concluía o serviço, cabia às mulheres transportar, quase sempre descalças, essas peças de mobiliário.
As carreteiras colocavam na testa a silha, também conhecida por estribeira ou rodilha, que era um pano com uma corda e onde amarravam o carrego (carga). Este era composto por cadeiras encasteladas umas nas outras, quase sempre para cima de seis e por vezes chegavam a transportar mais de dez cadeiras, para que a parca remuneração fosse maior.
Também podiam levar outras peças de mobiliário, como mesas, cómodas ou armários.
Quando as jornadas eram longas, com várias dezenas de quilómetros, por exemplo, até ao Porto, Amarante, Guimarães, Póvoa do Varzim e muitas outras localidades, saíam das oficinas aos primeiros alvores e caminhavam por estradas empedradas ou de terra batida. A única luz que viam, quando havia, era a do luar, e esperavam umas pelas outras para irem em grupo. Talvez assim conseguissem disfarçar o sacrifício e o medo entre todas.
Cantavam pelo caminho para ajudar a passar o tempo ou para avisar os clientes de que já estavam por perto.
“A bater quatro horas,
E eu ainda não merendei,
Pelo jeito que vou vendo,
Nem à noite chegarei”.
Além de transportarem as cadeiras para grandes distâncias, também as levavam dentro da freguesia, para as localidades vizinhas ou para a estação ferroviária de Paredes para a encomenda ser expedida para outros destinos mais longínquos.
Não tinham segurança social, seguro, férias nem um ordenado fixo, pois o seu trabalho dependia das encomendas. Era uma vida que não queriam ter.
Eram tempos difíceis e de privações. Contavam-se todos os tostões para que os filhos não passassem muita fome em casa. Dependendo do percurso, podiam ganhar entre 15 tostões e dois escudos. Os filhos mais velhos tomavam conta dos mais novos e há muitos relatos de carreteiras que afirmam que o seu primeiro carrego foi um banco ou dois, ainda antes dos dez anos, a acompanhar a mãe.
Carregavam à cabeça o peso de uma vida, por necessidade. Mas também por obrigação familiar. Cada passo era uma luta contra a miséria que assolava as freguesias do concelho de Paredes.
Os tempos sombrios confundiam-se com a sua própria sombra projetada pelo luar. Havia jornadas em que ainda conseguiam regressar a casa ao meio-dia e retomavam o sacrifício de levar outro carrego durante a tarde. Quando a jornada era longa, já tinha caído a noite quando regressavam.
Levavam no bolso pouco mais que pão seco e bebiam água das fontes. Ao passarem por um muro mais baixo, encostavam-se nele para aliviar o corpo por breves momentos. As mazelas, passadas décadas, ainda existem.
O regresso era menos penoso e as cantigas mais alegres.
“Viva a pândega
Viva o pagode
E viva os homens
Que não têm bigode”.
Ao chegarem a casa, ainda tinham as tarefas domésticas e os filhos para cuidar. Quando sobrava tempo, ajudavam o marido na oficina, seja a lixar, seja a empalhar a palhinha das cadeiras.
Nos dias de hoje, é impensável que alguém faça este tipo de trabalho. É difícil imaginar o sacrifício que era transportar várias cadeiras às costas e caminhar dezenas de quilómetros, por exemplo, até ao Porto. Eram tempos difíceis de pobreza, mas também de solidariedade. Muitas vezes riam e choravam quase ao mesmo tempo. Eram tempos alegres e de grande resiliência. Muitas carreteiras, que eram uma força da natureza, ainda hoje carregam as marcas desses tempos antigos na memória e no corpo.
HOMENAGENS
A 22 de julho de 2019, a Câmara Municipal de Paredes entregou a medalha de ouro a Maria Lamas, em representação de todas as carreteiras do concelho. Em 2007, a Junta de Freguesia de Lordelo homenageou estas mulheres numa sessão solene e, em 2025, com a inauguração de um mural pintado pelo artista Nuno Miles. A Companhia de Teatro Astro Fingido estreou, em 2017, a peça intitulada "Mulheres Móveis", que tem percorrido o país. A extinta Adega Cooperativa de Paredes prestou homenagem à indústria do mobiliário e, em particular, às carreteiras, em duas ocasiões, com dois rótulos distintos.
Esta profissão, se é que se lhe pode chamar assim, faz parte daquelas que não constam nos manuais das escolas. O concelho de Paredes tem o dever de não as fazer esquecer.
Julho/2026
João Vieira
Bibliografia:
CORREIA, André – Mulheres de carga - Revista E – Jornal Expresso, de 31/1/2025 pp. 30-35.
LEAL, Elisa; BORGES, Rafael – Memórias da nossa terra - Revista Cultural Orpheu Paredes 2024 p. 83.
PINTO, Fernanda – As memórias de Maria, uma das últimas carreteiras de Paredes – Jornal de Notícias de 8/10/2022 p. 25.
Uma vida de trabalho – Jornal O Progresso de Paredes de 12/12/2008 p.4.
Imagens:
Fig. 1 – Carreteiras no largo de São Domingos no Porto. Jornal de Notícias, “À descoberta do Porto – S. Domingos” 23/10/2022 – Espólio de Germano Silva.
Fig. 2 – Mulheres Móveis. Foto Astro Fingido.
Fig. 3 – Rótulo de garrafa da Adega Cooperativa de Paredes.
Fig. 4 – Rótulo de garrafa da Adega Cooperativa de Paredes.
Fig. 5 – Carreteira. Autor desconhecido.
Fig. 6 – Mural de Nuno Miles. Autor desconhecido.
