Herdeiros do sol
Alto-Molocué, Moçambique. Debaixo de um sol quente, chapa de zinco que escalda e os chinelos derretidos no asfalto. Habituei-me a ver as mulheres que carregavam os filhos no colo, com as suas capulanas, as avós nas machambas e os homens a pilar amendoim enquanto as crianças chilreavam como passarada sobre o capim. Pequenos sóis portáteis! Furam atravessando os buracos negros ancestrais. Na delicadeza de carregar uma flor, num velho que morre, repousando, num bebe que suga o mamilo de sua mãe.
Cresce no ventre embalado no movimento pendular do útero. Prepara a chegada da sombra por longos meses como se mastigasse o silêncio de todos os mistérios! Dança num compasso quaternário como o mundo, no seu nascimento sem se deixar engolir pela imensa sombra.
Somos herdeiros do sol porque, dançamos no fio da navalha entre a luz e a sombra, sabendo que, a arte é a mestria de cruzar este portal, regressando sempre!
